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Considerações sobre o Dia Mundial de Combate ao Tabagismo.
Ligo o rádio logo pela manhã e ouço uma propaganda ridícula, com as seguintes
frases que transcrevo fielmente: "Longe do cigarro é vida. Perto do cigarro é
morte"... Só de pensar nesta babaquice, sou acometido por uma enorme vontade de
ir até o bar, comprar um Marlboro e virar fumante.
Não fumo, nunca fumei nem pretendo entrar pro time do dente amarelo, mas
essas imposições arbitrárias de que o fumante não poderá exercer seu vício em
lugares públicos é ofensiva e discriminatória. Considero um grave delito contra
a liberdade pessoal.
Estas "leis" anti-fumantes têm como objetivo preservar os não fumantes das
tóxicas fumaças, e assim, economizar alguns trocados do Ministério da Saúde.
Porém, este tipo de regra de conduta abre precedente para outras afrontas
absurdas aos direitos de cada indivíduo. Além disso, são inócuas e só causam
constrangimento para o "criminoso".
Exemplo. Um político qualquer, preocupado com a violência, resolve criar uma
lei que não permite a entrada de pessoas com cabelo raspado em lugares públicos,
pois este corte de cabelo indicaria que seu possuídor é um frequentador da
FEBEM, e portanto, cometeria algum crime contra a propriedade privada. Logo,
para combater a criminalidade, basta proibir a entrada de "cabeças raspadas" no
shopping.
Por que a CPMF, o maldito imposto sobre movimentações financeiras, tem como
suposto destino a saúde? Pra onde vão os impostos pagos pela indústria do
cigarro?...Por que não organizam esta porra de país ao invés de criarem leis e
impostos categoricamente idiotas?
Ah, vou rebater o pinguim pra não me apoquentar com meus coleguinhas
contemporâneos.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Já que não adianta xingar, vou falar bem dela... Pretendo elogiar para ver se ela desiste de mim. Quem sabe?
A pessoa mais inteligente que eu conheço é a minha dor de cabeça. Não adianta me corrigir, dizendo que a dor de cabeça é em mim, e por isso, eu sou ela. Nada a ver. Ela é ela e eu sou eu. Não conheço nada sobre ela, e ela parece saber tudo sobre mim, sobre meu cotidiano e meus hábitos. Nada escapa aos seus sentidos e todo problema que eu coloco é habilmente resolvido por seu intelecto superior.
Por exemplo. No fim do ano passado, começei a tomar um remédio que me deixaria livre dela. Não mais encontraria com a dor de cabeça bem dentro da minha cabeça. Por um mês, o remédio foi ótimo. Nem sinal da ilustre. Aí, um mês depois, pimba! Dor de cabeça... ela aprendeu a desviar do remédio e voltou-me a me perseguir.
Comprei uma bicicleta e passei a andar com ela... Não por passatempo, mas porque a falta de exercícios físicos poderia ser a causa da Dor de Cabeça. Por um mês, nada de encontrá-la em casa, ou na minha cabeça. Já pensei que estaria livre dela, bastaria andar de bike até o fim da vida. Aí, como sempre, pimba! Dor de cabeça... Ela corre mais rápido que a bicicleta sem freio na descida da Luchini, e me pegou... Filha da...
Tenho muitos outros exemplos do que tentei fazer para a dor me esquecer, ou enjoar de mim. Agora, estou com a suspeita que é o leite. Só pode ser o leite. Maldito leite com Toddy que me deixa susceptível. Claro que, por uns tempos, ficarei sem tomar leite e sem dor de cabeça. Mas, como ela é muito esperta, logo saberá da falta de leite e vai me perseguir por outra coisa. Talvez por causa da cueca, do travesseiro, do sabão que eu uso... Alguma coisa...
O ruim, o péssimo, o nojento e o deplorável é que esta dor de cabeça sempre me ataca a cabeça. Se eu tivesse dor de cabeça na barriga, ou no joelho, nem ligaria muito. Mas esta enxaqueca bem na cabeça torra o saco... É intolerável... Por ela, abdico até do meu leitinho integral... Logo eu, amante do leite com café, com toddy, com nescau, com conhaque...... Deus é ruim, mas a minha dor de cabeça é ótima. Ela é uma gênia.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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O que une Thackeray, Pirandello e Fitzgerald?... Hmm, não sabe quem são esses caras? Esta situação exige um breve parágrafo explicativo, e já!
Breve parágrafo explicativo. William Makeapece Thackeray foi um escritor inglês do século XIX, bom nas sátiras da sociedade vitoriana... Luigi Pirandello foi um escritor italiano de grande destaque tanto na prosa quanto em peças teatrais. E o americano Francis Scott Key Fitzgerald foi o prosador maior dos esnobes anos 20, nos esteites, of course.
Nos contos de fadas, e nas idiotices do senso comum, casamentos armados pela família são péssimos. As pessoas devem escolher suas almas gêmeas sem pressão externa, para, assim, serem felizes para sempre... Muita gente inteligente acredita nisto, mas isto não vem ao caso.
Saiba você, caro coleguinha, que Thackeray, Pirandello e Fitzgerald bateram o pé para casar com determinada moça, que, teoricamente, seria a "certa". Pois bem... as três esposas enlouqueceram totalmente.
Thackeray viu sua esposa, já demenciada, morrer num hospício sem reconhecer o marido. O pobre Pirandello, que só ganhou uma grana quando o Nobel de literatura veio lhe bater à porta, conservou sua esposa maluca em casa até a morte da mulher, em idade bem avançada... E e esposa do Fitzgerald morreu queimada num asilo, em 1947.
Apesar da coincidência, não podemos tirar nenhuma "moral da história". Então, fim.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Mais um grande capítulo da grande série:
Grandes Soluções do Grande Felipe , o Enorme!
Quatro problemas espezinham a República Federativa do Brasil, a saber:
- Falta grana na Previdência para pagar os aposentados;
- A mesma Previdência tem dificuldades em conquistar novas fontes de renda, pois toda a população já se encontra em desespero fiscal;
- Em medida controversa, o governo federal proibiu os bingos, pois suspeita-se que eles existam para lavar dinheiro da máfia internacional;
- Muitos velhinhos perdem toda a grana da aposentadoria no vício de jogar bingo.
Para resolver tudo isso, proponho a estatização dos bingos, sob controle da Previdência. Numa esfera circular de caráter redondo, projeta-se que a mesada que os véios recebem do INSS, posteriormente torrada em bingos, voltaria aos cofres da Previdência. Assim, a verba do governo retornaria à endividada Previdência, e o vício do jogo realimentaria a aposentadoria das vovózinhas deste Brasil. Portanto, eu sou um gênio. Bingo!!!
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Deus fala com Felipíades do meio do cabideiro ardente.
E bocejava Felipíades de tanto sono em seu quarto. E foi com seu esqueleto cansado deitar-se em meio aos lençois de sua cama de dois covados.
E Felipíades começou a dormir tranquilamente. E no meio da noite, sofrendo de odiosa insônia, acordou e contemplou a lâmpada do teto; e eis que o cabideiro de seu quarto ardia no fogo, e as camisas não se consumiam.
E Felipíades disse: Porra caralho! Deu tilt no bagulho! Queimam as camisas mas o fogo não as consome.
E vendo o Senhor que Felipíades estava em grande pasmo, bradou Deus a ele do meio do cabideiro: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, por acaso aí é do Açougue do Cacique?
E Felipíades disse: Açougue do Cacique? Não... Aqui é do quarto do Felipíades, que também é Deus, mas não tem nenhum planeta para exercer seu mandato, quer dizer, fúria e justiça.
E Deus disse: Ah, desculpe então!
E assim o cabideiro cessou de arder, e as camisas de Felipíades não se queimaram, e a aparição lhe deu o sono que faltava.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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De repente, minha mãe ganhou do laboratório um monte de Cialis, concorrente do Viagra. Que fazer com este presente?, ela pensou. Sabendo de minhas altas soluções para os baixos problemas deste mundo medíocre, a genitora veio me pedir ajuda.
- Doe pro asilo dos velhinhos! - Respondi eu.
Mas doar viagra para um cardume de nonagenários não seria muito digno. Quem os velhinhos comerão? Companheiras velhinhas enrugadas e decrépitas? Não... Coitados... Não adianta dar um potente garfo se só tem bife duro e pelanquento na geladeira.
Como a primeira solução não agradou, logo disparei a segunda:
- Doe pra mim, que eu vendo pela metade do preço da farmácia!
Problema resolvido. Aproveito este espaço para fazer propaganda de minha nova atividade. Quem quiser um comprimido, eu vendo. Até porque vem apenas um comprimido em cada caixinha, que está selada e autenticada pelo próprio laboratório.
Se tu ficou interessado, ó caro e impotente coleguinha, mande-me um e-mail. Como de costume, tenho a solução para todos os seus problemas... Depois que sugiro meu nome para algum Nobel, ainda acham exagero. Bando de míopes.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Doutor Fausto
Sempre inovador, eu farei uma resenha de meio livro. Li a metade de Doutor Fausto, do tiozinho alemão teuto-germânico Thomas Mann. Das 687 páginas, aventurei-me até a 339, praticamente o meio do livro. O romance narra a vidade de Adrian Leverkühn, compositor que vende sua alma ao diabo para criar sua grande obra musical. Não cheguei na parte da grande obra musical. Larguei após o pacto com o Grão-Tinhoso.
Primeiro, aos pontos que considero indiscutíveis. Thomas Mann escreve com clareza, objetividade e sutileza impressionantes. Não aderindo aos dogmas vanguardistas do séc. XX, o escritor desenvolve sua prosa com a liberdade e a inteligência que os moderninhos modernistas não possuem. Portanto, não se pode falar mal do alemão na questão técnica do romance.
Repito que é um treco muito bem escrito. Mas só isto não basta, pois parei na metade. Que "falha" apresentou o romance pra que eu o largasse? A maldita quantidade de texto. Muitas letras que se sucedem interminavelmente. Uma simples digressão acerca de um gago extende-se por páginas entupidas de ensaísmos filosóficos que torram o saco de qualquer cristão. Por essa condição, a arte do romance torna-se artificiosa, e assim, grande parte do que é escrito fica parecendo uma exibição gratuita da cultura humanística do tiozinho Mann.
Aos diálogos, vale a mesma opinião. Cada personagem filosofa em demasia. Há coisa parecida na obra do mesmo autor chamada Montanha Mágica. Porém, esta parece um pouco mais contida, menos verborrágica e acompanhada de humor, que torna a obra palatável. Neste Doutor Fausto, a coisa fica demasiadamente elitista e pedante. O personagem não fala. Ele expõe algum elocubrado sistema filosófico germânico. E são sempre seríssimos. (O que me lembra o clichê do alemão sempre sério, impenetrável a qualquer piada ou gracejo).
Acredito que este seja, por vontade do próprio Mann, o mais alemão de seus livros. Adrian Leverkuhn, o herói da obra, seria a síntese dos grandes gênios do pensamento e da arte alemã. Além disso, sua biografia tem paralelos com a história da Alemanha Nazista, partindo do príncipios da loucura pró-ariana até o trágico fim, com as tropas russas bombardeando os ossos de Berlim.
Seja como for, larguei. Talvez a porque o livro utilize centenas de páginas em dois temas que sou ignorantão: Alemanha e música clássica. Talvez porque minhas opiniões são, em algum grau, válidas. Seja como for, minha conclusão foi roubada de uma crônica de Machado de Assis: que livro cacete.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Tem gente que gosta do inverno pra dormir. Outros, para usar mais roupa. Eu gosto do inverno porque não gosto de tomar banho. Demonstrarei meu raciocínio para fugir da água: utilizo o frio como desculpa para não tomar banho. E não tomo mesmo, foda-se.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Que condição mais injusta. Tédio, pasmaceira, nada... Aí entro aqui pra ver os comentários e pfffff... Por que não dizem que estou errado, que todas as minhas opiniões estão tortas e só digo marmeladas sem fundamento?
Eu já tentei de tudo. Fiz souffle, tentei vender minha alma ao diabo, mas ele furou. Decorei a ordem dos verbetes na enciclopédia. Já li todos os livros que deveria ler e já desprezei os desprezíveis. Até conheço todas as ruas de paralelepipedos desta cidade. Tudo em prol do meu tédio, pois a moleza do destino ou a incompetência do acaso parecem impedir as novidades.
Por que Deus não manda um meteoro na casa das velhinhas "do mundo"? Se bem que seria pedir demais para Deus... Vou começar por baixo.
- Deus, me mande um quindim!
E nada acontece... Ou Deus não me ouve, ou não existe (mais provável) ou quer me punir não enviando um quindim. Impiedosa punição! Que fiz eu para não merecer um quindim das confeitarias celetiais, que desça das nuvens acompanhado de um coro grandioso e raios de intensa luz?
Pior que não há nem um cri cri de um grilo. Nem vento, lua, nem carros na rua. Ah, agora que falei, passou um carro. Mas passou e foi embora. Não me trouxe nada.
Um dia alguém aparece. Ou Deus ou o meu quindim. Paciência. Vou olhar o dicionário e procurar alguma palavra que seja a saída.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Procuro mecenas que patrocine o meu tédio. E só.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Por séculos, milhões de negros foram literalmente arrancados da África e vendidos como escravos ao mundo. Hoje, no Brasil do século XXI, eles podem entrar em faculdades públicas graças a lei de cotas, que estabelece certo número X de vagas para afro-descendentes.
Durante a ditadura militar, boa parte da militância contrária ao regime foi exilada e/ou torturada e/ou assassinada, sem lero-lero nem julgamento honesto. Hoje, estes mesmos políticos (que não foram assassinados, é claro) arrogam-se com direitos para fazer arbitrariedades X ou Y, pois "foram perseguidos durante a ditadura".
Pergunta: sofrimentos em tempos anteriores justificam privilégios em tempos posteriores?
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Seiscentos e sessenta e seis... O número da besta. Mas por quê? Por qual motivo o Apocalipse de João é o único texto de toda a Bíblia a numerar o Grão-Tinhoso?... Respondo para que não me perguntem depois.
Suponho que o caro coleguinha desconheça a gematria. Além disso, também acho que não sabe qual seria a explicação do termo "gematria"... Assim ó: "Sistema criptográfico que consiste em atribuir valores numéricos às letras".
Ou seja, pega-se certas palavras e passa para números, desde que a língua em questão tenha parelelos com o sistema numérico. Portanto, certa palavra, ou nome, pode ser escrita com números. Isto é um troço cabalístico, usado pelos hermeneutas da Bíblia e outros textos sagrados. Não é coisa para pessoas saudáveis, ou que se dedicam a ler blogs.
Entra o Anti-Cristo na história. Como defendem alguns estudiosos, não seria um ser das profundezas do inferno, mas sim uma figurinha conhecida da época: Nero Claudius Caesar, o imperador maluco. Seu nome equivale, na gematria hebraica, ao "meia-meia-meia". Devido a intensa perseguição aos cristãos que este imperador promoveu, é provável que João, escritor do Apocalipse, tenha usado o 666 para qualificá-lo sem dar nome aos bois, ou bestas.
Mesmo assim, vejam só... A placa do meu carro tem 666. Pois bem... Em seis meses que sou dono deste veículo, já quebrei duas vezes a laterna traseira direita. Duas vezes! E nunca lavei o supra-citado... Coisa do demo.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Passado-Presente-Futuro e os Armários dos Outros
Vira e mexe, sou solicitado para ajustar dobradiças no guarda-roupa de
alguém. Ou trocar puxadores da cozinha. Ou dar uma lustrada na cômoda. Ou matar
cupim da cama, e demais ofícios hábituais na vida de quem trabalha com móvel
velho.
Devido a estes bicos, sempre entro nas profundezas das casas alheias. Vejo
como e onde as pessoas guardam as coisas. O que elas conservam, o que elas não
possuem. Avalio o nível da tralha e, às vezes, encontro coisas que as pessoas
julgavam perdidas. Fotos, papéis, bijuterias, bobeiras.
Infelizmente, nunca achei nada de comprometedor. Meus clientes são ou caretas
ou extremamente caretas. Não importa. Tudo o que já escrevi até aqui tem como
objetivo fundamentar a seguinte teoria:
"Podemos dividir a raça humana entre os que guardam um monte de tralha inútil
e as que mantém apenas o útil e funcional."
Em todas as minhas incursões nas coisas dos outros, jamais encontrei nível
médio de bagunça. São duas áreas sem gradação entre as partes.
Destrinchemos.
Em certos lares, há apenas o essencial. Cadeiras no número de pessoas da
casa. Sapatos bons e utilizáveis dentro do armário. Apenas potes de plástico que
são úteis no presente. Esse tipo de gente não guarda coisa que "pode usar no
futuro". Também não guarda coisa que usou no passado. São os pragmáticos.
Seus armários são espaçosos e arrumados, pois a regra é não guardar o que
parece ser lixo. Portanto, não se armazena o que se pode comprar novamente. Não
que sejam consumistas compulsivos, mas não há um apego exagerado a uma cesta de
vime velha. Guarda-se o que se usa e pronto. Lixo para o inútil e sem
futuro.
Outra espécie é a dos guardadores. O imperativo desta gente é conservar tudo
que for possível. Jogos de tabuleiro, sapatos antigos, inúmeras cadeiras, potes
de margarina que poderão ser úteis no futuro, eletrodomésticos quebrados que, um
dia, mandarão consertar. Roupa que usou no casamento, no batizado do filho, no
bar mitzvah do vizinho, etc.
Nestas casas, mão me espanto em encontrar três impressoras velhas guardadas.
Ou pilhas de revistas Veja (a revista mais idiota pra se colecionar).
Cristaleiras abarrotadas de lembrançinhas. Ao contrário dos pragmáticos,
torna-se impossível citar e numerar os pertences. Por conseqüência, também não
dá pra separar o que é útil do que é inútil.
Aqui em casa, somos dos últimos. Os guardadores. Num armário obscuro, minha
mãe guarda uma caixa de aliança dentro de uma caixa de cosmético dentro de uma
caixa de sabonetes dentro de uma caixa de copos dentro de uma caixa dentro de
uma caixa dentro de uma caixa de uma caixa. Não há nada dentro destes
invólucros, apenas invólucros menores. E pra quê? "Por que um dia pode precisar
de uma caixa"...
Os guardadores vivem em outro tempo. Se observassem seus
armários-depósitos com sensatez, ou frieza, perceberiam que não vivem no
presente. Nada é útil agora, já, neste instante. Tudo é passado ou futuro. Foi
útil um dia, como a caixinha de aliança, e poderá ser útil no futuro, caso
alguma aliança precise de uma caixa...
Estas característas são hereditárias. Pais guardadores transmitem o vício
para os filhos. E filhos pragmáticos sempre tem pais pragmaticos. Aprendi isto
com a observação dos fatos. Como sempre faço trabalhos para pais e filhos,
jamais notei disparidade no comportamento da família.
Por fim, acho ótimo quem usa apenas o essencial. Quem não guarda omeleiteira
depois que aprendeu a fazer omelete na panela comum. Mas não posso criticar os
guardadores, pois sou um deles. Tenho pilhas de discos, superinteressantes,
gulas, cd´s, pedras, latas de cerveja, vidros de maionese, canetas e por aí vai
até o limite do espaço, do passado e do futuro... Ou da paciência.
P.S.: Atenção caros coleguinhas! Ajudem a boa alma da Dona Dani Bee, comprem
istos.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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No Mundo
Toda vez que ouço/leio a palavra "mundo", imagino documentários sonolentos da National Geografic: "Terra... planeta água... Há 4,5 bilhões de anos... o magma incandescente das profundezas... como a vida surgiu ninguém... um enorme meteoro caiu na península de... blá blá blá".
Pois bem. Apresento algumas conversas esparsas que captei enquanto apertava parafusos. Dou apenas duas informações necessárias: 1) todas as senhoras se tratavam por "irmã", embora nenhuma tivesse parentesco. 2) É tudo verdade.
- Fulano de Tal caiu no mundo, irmã. Não fumava nem bebia. Agora, olha só, fica andando com uma menininha de roupa curta... de cigarro na boca...
- Nem me diga, irmã, essa criançada de hoje já cai no mundo muito cedo.
- Em casa é assim. Não pode sair sozinho. Eu não deixo meus filhos cairem no mundo. Só sai com algum aduto direito junto.
- Acho assim, se não é igreja, supermercado, banco ou farmácia, já é mundo...
- Ah, só Deus mesmo, irmã, só Deus... Louvado seja o Senhor...
- Porque a Lurdinha, filha da Inês, tava namorando um rapaz do mundo. Aí largou dele e agora está com o filho do Cosme... não bebe, não fuma, trabalha no cartório, vai na igreja... moço direito... e a Inês não deixa a Lurdinha se casar com ele...
- Mas que coisa! Assim os filhos, os jovens, eles se revoltam, aí caem no mundo.
- Mas irmã, eu disse isso pra ela! É teimosa. Mas Deus vai abrir os olhos dela...
- Ah, vai sim.
Depois acham piada que eu tenha implicância com essas velhas católicas da minha rua (apertava parafusos na casa de uma delas). Nessas horas que eu me considero amaldiçoado. Ouvir estes papos deve-me valer pontos no Juízo Final, ou coisa parecida. Também sou azarado: sempre esqueço de colocar um par de protetores auditivos dentro da minha caixa de ferramentas.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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