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Há 25 anos, morria um inglês gordinho com nome de mordomo. Ficou célebre ao fazer filmes de suspense.
Há 60 anos, suicidou-se um judeu homossexual de bigodinho inesquecível
Há 100 anos, um funcionário público do serviço de patentes suíço revolucionava a física com 04 singelos artigos cientifícos.
Há 320 anos, nascia o compositor e organista alemão de nome João Sebastião Ribeiro.
Há 400 anos, surgia a primeira parte dum livro que narra a história de um velho magrelo e seu amigo preguiçoso e barrigudo.
Mas falarei de coisas mais sérias... Entrará para a História com agá maiúsculo quem descobrir, usando da alquimia, o elemento que transforme rabanetes em alguma comida elaborada. Será aclamado gênio e o segredo da Pedra Rabanetal valerá milhões de dólares. Os fracassados, no entanto, continuarão no limbo do anonimato do qual só poderão sair se fizerem algum outro feito estúpido, do tipo “viajar no tempo” ou, quem diria, solucionar o probleminha do P versus NP.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Eu pensava em como me tornar faroleiro. Quem vai me querer de faroleiro? E se é que os faróis ainda existem pra faroleiros neles trabalharem. Se os faróis de hoje, mesmo inúteis, são feitos de alguma liga inoxidável com lâmpadas nunca queimáveis do futuro. E quem vai, por exemplo, perceber que a lâmpada nunca queimável queimou? Um faroleiro quando fui interrompido por:
- E aí? Que achou do livro do chico buarque?
Percebi que dava lentos socos na parede enquanto imaginava o meu farol... e não respondi a pergunta, pois não acho nada deste chico buarque e como faz pra exercer o ofício de manter um farol em funcionamento? Lembrei daquele O Deserto dos Tártaros e voltei a meditar com fúria numa solução para sumir do mundo e não sei que atos cometi durante esta vontade pouco peculiar.
Depois vi que havia um litro de leite sobre a mesa. E eu não tomo leite. Alguém comprou leite durante minhas investigações mentais. Talvez eu mesmo. Não sei. Acho que vou arranjar uma faca do Rambo, entrar no mato para matar vietcongues. Só voltarei quando estiverem todos mortos.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Outro dia, lia um livro do Borges e tomava uma Brahma. Nada de anormal, até que uma letra i fugiu da nova palavra “irr sórias” e ficou andando pela página. Abismado, acompanhei o i pra ver seu destino, afinal, eu nunca vi is correndo pelos livros.
Pensei ser um i coringa, correndo para as palavras sem is que, por ventura, existissem naquele exemplar. Mas não vi outras palavras sem is e sei bem que aquele livro, de edição cuidadosa, não deixaria de grafar os devidos is onde fossem necessários. Li tal obra umas quatro vezes. E jamais trombei com falta de is.
Enquanto formulava estas considerações, o i vagueava pela página, até que saiu correndo pela lombada do volume, entrou numa folha bem anterior e nunca mais o vi (exceto pelos is comuns, imobilizados pelo sentido das palavras que ajudaram a construir). Quero crer que tal i ambulante fosse efeito de minha cerveja, pois a hípotese de que as letras andem nos volumes deixou-me preocupado.
Talvez eu deva ler todos os livros que já li, pra ver se o fenômeno é menos raro ou se, putz, tudo mudou após eu ter fechado as páginas. Também preciso saber se o evento só ocorre aos “is” ou se outras letras, tal como o p ou mesmo o ponto e vírgula sofrem de ambulação repentina.
Enfim, fica aqui o registro desta minha experiência. Acaso alguém veja outras letras andando pelos livros, quem sabe palavras inteiras, favor entrar em contato. Tornar-se-á necessário criar um grupo de estudo dos caractéres móveis, ou informar as autoridades competentes.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Habemus papam!
But who gives a shit?
Amiguinhos. Estou sem televisão. Após alguns dias de leve depressão e desatualização, percebo como estou no lucro.
Fiquei sabendo que o papa morreu... mas probleme dele... Entrava no domicílio, botava um roquenrol, fazia minha Caipirinha e pronto.
Fiquei sabendo que as votações pra papa começaram... mas problema deles... Introduzia meu corpo no lar doce lar, implantava um rock and roll, manipulava minha Pequena Campônia e fim de papo.
Agora sei que habemus papam... mas problema dele... Continuarei rompendo a subjetiva dicotomia mundo exterior versus mundo doméstico, configurarei o aparelho de som para tocar músicas a base de três acordes simples, batida insistente e guitarras distorcidas, continuarei minha alquimia de destilado do mosto fermentado de cana de açúcar, lemon e gelo, cujo resultado pode ser dito como “moça provinciana de diminuta estatura” ou coisa parecida, e termina a conversação.
(Meus neurônios agradecem a ausência do cubo televisivo).
Só sinto saudade dos Simpsons. Mas oh!, não se pode querer tudo nesta vida.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Suicídio acidental
Duma feita, quase me matei, e nem tive a intenção. Conto-lhes...
Possuia eu uma gripe violenta. Exalava ranho, transpirava muco, gargarejava gosmas virais... E me deu fome também. Fui na cozinha, abri o armário e... nada. Geladeira, necas... Por aí, nem vírgula... exceto um pão velho.
“Farei uma torrada, ela vai me curar”... Naquele estado horrível, cortei fatias do pão, passei uma manteiguinha, e enfiei tudo no forno. Girei o treco que libera o gás no conteúdo da máquina cozinhante e me esparramei numa cadeira ali do lado. Tudo muito bem. Único deslize foi esquecer do botão que dá choque e acende o fogo.
Lá fiquei, em transe gripal, esperando minhas torradas, matutando pensamentos e pruridos... Passados uns dez minutos, tive outra brilhante idéia: “farei um chazinho, ele também vai me curar”.
Botei água no caneco. Botei o caneco na grelha. Girei a válvula de gás e apertei o botão que dá o choque.
FUSHHHHHHHHHH!!!!!
O gás não me intoxicou. O fogão imitando um foguete em lançamento também não me matou. Só perdi a fome. E sarei da gripe.
Uma vez, um cara bateu o carro num poste e amassou um tanto e o sujeito saiu pra ver o estrago e aquela parada que segura a lâmpada do poste caiu na cabeça do tio. La muerte.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Estou criando um método próprio de tomar decisões... Ao invés de d´eu ir atrás daquilo que eu quero (breve nota explicativa: não quero muitas coisas), faço o oposto: uma lista de tudo o que eu não quero.
Como vinha vida chegou numa encruzilhada, vou acabar decidindo o caminho pela paisagem que ele não tiver. Não quero retas cortando a planície. Também não quero passar por cidades. Não quero ver posto de gasolina da Texaco e não estou com vontade de andar por onde tem lagos pela esquerda. Tolero lagos pela direita, mas na esquerda, nem pensar... E não quero encontrar motel com nome engraçadinho. Para o resto, não tenho objeções... Ah, vou dar meia volta se o Sol bater na minha barriga. Odeio quando isso acontece.
Depois de escolhido o não-caminho, vou. De fato, ainda não fui, pois a lista dos não-quero ficou um pouco grande demais. Fiquei muito não-seletivo de uns tempos pra cá. Mas não quero cortar não-queros. Então paciência, vai na frente quem está com pressa...Ou quem quiser as coisas que eu não quero, tanto faz...
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Conselho 6 – Seja humilde.
“Sendo humilde pensarei melhor?” Sim, meu amiguinho!
Suas opiniões podem mudar, e se você foi humilde quando as colocou no mundo, poderá mudar sem grandes traumas para você e para suas outras idéias.
Os fatos podem mudar a seu favor, e suas idéias poderão receber a popularidade que antes não recebiam. Se a humildade estiver em seus pensamentos, a atenção tão sonhada não fará o sucesso lhe subir na cabeça. E isto é ótimo pra continuar pensando direito.
Por outro lado, os fatos podem mudar contra você. E se você for humilde, também será flexível pra mudar de acordo com a nova realidade. O que é ótimo. Ruim é, por arrogância, ficar sentado numa idéia que não tem mais valor algum.
E ainda tem o torpe dogmatismo. Atitude de quem pensa que é a verdade é um bem durável cuja posse pertence a ela, que a descobriu durante noites insones na estalagem da razão mais seca da estrada;;;. Baita erro. Alguém, uma hora ou outra, vai encontrar um pensamento muito melhor que o seu. Mas muito muito mesmo... No futuro, as estalagens da razão muito serão mais secas que a de hoje, e se você for humilde, não ficará bravinho e cheio de ressentimentos quando isto acontecer. E vai acontecer.
Só não sei quando, nem como, ou onde... Fato é que o espírito humano vive se superando, portanto, trate de superar as burrices de hoje. E não fique nervosinho quando for superado pela inteligência de amanhã. Isso acontece.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Conselho 5 – Cuidado com as Nuvens
Vejo o cavalo, mas não vejo a cavalidade. Alguém viu a globalização pastando por aí? E o neoliberalismo, será que fugiu? Outro dia eu vi a sociedade de consumo pendurada numa árvore. A árvore da liberdade.
Cuidado com a cavalidade. Tenha bastante prudência antes de usar estas palavras que todo mundo fala mas ninguém consegue explicar direito. De um modo geral, elas não existem, e só servem pra preencher lacunas em raciocínios meio tortos. Também servem pra dar impressão que estamos lidando com algo muitíssimo abstrato e intelectualmente desafiador, mas que não passam de nuvens. Parecem sólidas, mas é tudo vapor...
A razão destas sábias palavras seria a de expressar conceitos a partir de alguns dados concretos facilmente identificáveis, mas sem unidade entre eles. Por exemplo. Antiguidade... seria a qualidade daquilo que está obsoleto, velho, não serve mais. Dentro da antiguidade podemos enfiar todo tipo de cacareco agora inútil, como charretes, escarradeiras, poster do Status Quo, filosofia escolástica, pirulitos Dip´n Lik, programa da Hebe, campeonatos de Cha Cha Cha, etc.
Mas campeonatos de Cha Cha Cha também cabem dentro da “musicalidade”, qualidade de tudo aquilo que é musical... E tambem da “competitividade” qualidade de tudo aquilo que é competição... E mais a latinidade, qualidade de tudo aquilo que é latino...
Observe que podemos usar vários conceitos abstratos a partir de uma coisa concreta (o campeonato de Cha Cha Cha). Nisto não há problema algum. Tudo ótimo. O problema surge quando explicamos conceitos abstratos com outros conceitos abstratos (deus, globalização, felicidade, o conceito de moral na sociedade capitalista, etc). E assim por diante, criando um blá blá blá que raramente define alguma coisa, mas é um delicioso exercício de montar e desmontar juízos. Feito Lego, pode-se fazer o que quiser com aqueles bloquinhos de plástico.
Não digo que você deve virar um nominalista radical (doutrina que acredita que tudo é blá blá blá e é melhor ficar quieto), mas é preciso ter cuidado com discursos sedutores, principalmente de supostos pensadores nacionais, sujeitos caetanos e muito velhosos, cuja prosa cheia de musicalidades, e o verso de latinidades, de antropofagia da competitividade demonstram a riqueza da baianidade numa sociedade porque eu fui perseguido pela ditadura!, ou não.
Assim, este conselho pede-lhe para ver o Caetano, mas não veja a velhosidade. Não se perca em nuvens filosóficas, científicas, religiosas, ideológicas, palavrógicas, etc... Tudo que é inteligente também é simples. Senteças obscuras são nuvens de fumaça: servem pra despistar durante uma perseguição.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Conselho 4 – Pense!
Falar é fácil... mas pensar não é nenhum bicho de sete cabeças. Basta conhecer a técnica. E como se faz isto? Com Sócrates!
Todo homem é mortal Ora, Sócrates é homem. Logo Sócrates é mortal
Pobre Sócrates. Faz muito tempo que ele sofre em todo tipo de silogismo (isso aí de cima). A explicação é fácil e você nem precisa torturar Sócrates no futuro. Veja que a primeira frase expoe um juízo universal, que se aplica a todo mundo. A segunda frase particulariza a questão. Não se trata mais de todo mundo, mas sim do gasto Sócrates. E assim, se Sócrates é homem, logo ele também é mortal. Parte-se duma idéia geral para uma afirmação particular, que é problema do Sócrates. Isso se chama dedução. Deduzimos do que é maior até o que nos interessa, o menor, e disto tiramos uma conclusão. Mas não funciona sempre.
Então podemos fazer o contrário. Esqueçamos o coitado do Sócrates e usaremos a infame Indução.
Saio com uma moça, ela me larga falando sozinho pra entrar numa loja de roupas. Desisto dessa escrota e resolvo sair com a amiga dela, que também faz a mesma coisa na mesma loja. Baranga... Tempos depois, conheço uma guria que me parece diferente de todas as outras, estou apaixonado e vamos no shopping comprar alianças. Ó, o amor é lindo. Passamos pela loja de roupas que já me tirou duas moças, e pimba. A terceira entra lá e não sai mais.
Disto concluo: toda mulher é igual. E isto é uma indução, meu caro coleguinha. (Indução é o que eu pensei, não o que acontece com as moças na loja peçonhenta). De três amostras de comportamento, eu retiro uma lei que vale para todas as fêmeas deste planeta. Indução, portanto, é partir do pequeno, do particular, e concluir algo que vale pra todos, o universal.
Outras dicas fáceis:
Procurar o beneficiado... tu entras numa intriga desgraçada e não sabe quem mais faz o que nem por quê... Deduções e induções podem ajudar, mas só sabendo a quem interessa toda a situação que poderemos descobrir alguma coisa.
Não existe uma única resposta certa... Ensinam na escola, mas está errado. Aliás, a escola faz um desserviço ao bem pensar, pois um problema pode ter várias respostas corretas.
O nó gordio... Quando tudo indica que uma problema parece impossível de ser resolvido, talvez ela seja impossível de resolver. Pegue uma marreta e destrua o problema. E se um gênio resolver o problema, imite. Desde que isto seja o mais prático a ser feito.
Leia... Tudo nesta vida tem um manual de instruções. De como trocar a bomba da caixa d´água até como se livrar de um processo por homícidio duplamente qualificado. Caso não seja possível, contrate alguém competente.
Pessoas competentes custam caro. Raramente o mais barato fará um bom trabalho. Quando isto acontece, o sujeito ainda não percebeu que é o melhor. Aproveite enquanto ele ainda está ingênuo.
Pesquise... saia com milhares de moças e passe com todas na frente da mesma loja. Anote os resultados com precisão e depois tire suas conclusões. É possível que alguma escape (cegas, dependentes de cadeiras de rodas que você empurra, a ex-dona da loja ou mesmo uma fálida cheia de promissórias no lugar em questão).
Seja criativo... a resposta comum pode estar completamente obsoleta. Mas só saberemos disto quando surgir uma resposta mais eficaz e criativa... E se não foi você o responsável por esta resposta melhor, não adianta reclamar. Isto é coisa que os burros fazem.
Não se esqueça de pequenos detalhes... Napoleão, quando invadiu a Rússia, esqueceu-se de um detalhe bobo: o inverno russo... Hitler esqueceu-se de dois detalhes bobos... Primeiro, Napoleão já tinha se ferrado quando invadiu a Rússia. E segundo, que ele estava fazendo a mesma burrada...
E desconfie. Inclusive disto tudo que aconselhei.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Conselho 3 – As exceções de sempre.
Mulher é mestre na seguinte afirmação: “homem é tudo igual”. Pode parecer verdade, mas está longe dos fatos. Se a moça conhecesse mais homens, ela seria obrigada a reavaliar a afirmação. Maior número de amostras, maior a probabilidade de que idéias idiotas sejam descartadas, assim como é maior a probabilidade de que afirmações válidas sejam comprovadas.
Mas... nem toda mulher diz “homem é tudo igual”. Essas são claramente mais inteligentes, ou sabem pensar direito, o que dá na mesma. E este é o objetivo destes conselhos. Fazer a massa ignara aprimorar alguma inteligência que talvez possua.
Outro dia, uma pesquisa descobriu o seguinte. Homens que não fazem a barba diariamente tem maior chance de arranjar trabalho braçal e menos cerebral. Neste caso, conclui-se que os barbeados contumazes ganharão a vida com seus belos e potentes cérebros.
Pouco provável. Eu raramente faço a barba, mas não é porque trabalho com os braços (sou restaurador de móveis), mas simplesmente porque a profissão não exige que eu entre escanhoado, todo santo dia, em minha oficina. E o que dizer de um professor? Ele não depende de seus braços para ganhar a vida e sempre os vejo com barba por fazer... Caixa de banco, sempre tão barbeadinhos, não usam muito o cérebro e ainda trabalham com as mãos.
E o Stephen Hawking? É um baita cérebro num corpo inútil, mas está barbeado pois uma enfermeira esfrega o Prestobarba no bigode do infeliz... Sendo assim, podemos concluir que a pesquisa usou pouco número de amostras e o resultado ficou por demais discutível. Inconsistente.
Mas podem surgir vozes como “São exceções! E todas as regras tem suas exceções!”... Se toda regra tem uma exceção, logo a regra da regra é que ela tenha exceções, portanto, as exceções são a regra? E existiria uma regra-exceção que não teria nenhuma exceção? Hmmm, deixa pra lá...
Esqueça esse negócio de que um fator X observado conduz sempre para o efeito Y previsto... Se você não encontrou uma exceção para a regra que pretende formular, é melhor continuar procurando, pois elas existem. E o que comprova tal afirmação é a física newtoniana, que só funciona sob certas condições cotidianas. Em situações mais arrojadas – partículas sub-atômicas e astrofísica - elas não tem resultado confiável, apenas aproximativo, funcionando mais como probabilidade do que como rigorosamente exato. Claro que não podemos congelar todo pensamento apenas por uma ou duas exceções. Elas ocorrem, e não há muito o que fazer para evitá-las. Mas não podemos formular teorias em que o número de exceções seja maior que o de provas destas mesma teoria.
Portanto, quando afirmar alguma coisa, tente verificar todas as fatores envolvidos e as possíveis exceções. Quanto mais elas existirem, menos você acerta o alvo e mais você deveria ficar calado...
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Conselho 2 – Adquira informação.
I got information, man... Cultura também vale, fatos idem, dados pluviométricos se você estuda chuva. Obviamente, conhecer todas as variantes de um assunto não vai lhe ajudar a pensar melhor, mas fornecerá os ingredientes de sua panqueca mental. Como cozinhar tal iguaria está melhor escrito nos outros conselhos.
E a analogia culinária funciona muito bem, pois o maior cozinheiro do mundo nada poderá fazer sem ingredientes. Por outro lado, os melhores ingredientes do mundo na mão de um barbeiro das panelas vai resultar em gororoba intragável. Isso se ele não ligar pro disk pizza, que é mais fácil.
Portanto, caso queira pensar bem, é necessário suprir sua mente com os fatos, dados, informações. E aqui o assunto se divide pra depois voltar a se unir.... De nada adianta saber absolutamente tudo sobre o Duque de Milão se você quer pensar sobre átomos de Hélio em temperaturas solares. É preciso saber um pouco de tudo, caso queira livrar-se do nada.
Leia revistas, consulte a enciclopédia ao sabor do acaso, veja um filme que não tem nenhum interesse especial, absorva dos jornais aqueles fatos que achar intrigantes. Entre em sites malucos da internet. Aqui devemos fazer como alguém que vai passear por aí, sem rumo nem objetivo. Onde chegar chegou.
Este tipo de comportamento parece inútil, mas não é. Relembrando as panquecas, buscar informações pelo simples prazer de saber mais coloca ingredientes no seu "estoque mental". Quando precisar de algo: "ei, uma vez eu li que a Suíça fornece energia elétrica pra todos os países de sua volta, porque tem bastante rios, logo blá blá blá".
Obviamente, se deseja estudar a variação das fibras de cânhamo nas telas do renascimento florentino, é melhor adquirir informação sobre isto. Mas nunca me surpreenderei se o fulano que descobriu um lance X nas fibras de cânhamo porque viu uma vez que as fibras musculares de um mendigo encolhiam da mesma maneira X quando submetidas ao melancólico rigor mortis.
Desta maneira, adquira informação, tanto se ela vale imediatamente, e tanto se valer pra um futuro indistinto. É melhor saber mais agora, quem ninguém perguntou do que saber muito depois, quando todos perguntaram e você ficou com cara de frentista de posto BR. A analogia da cozinha pela última vez: se quer fazer patê de alho, uma melancia só vai tomar seu tempo. Mas se você já tem muitos ingredientes, basta adquirir o que falta.
Enfim, também desconfie das informações adquiridas. Elas podem mudar de repente e lhe deixar num atoleiro nada inteligente.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Conselho 1 – Duvide.
O mais simples de todos os conselhos para bem pensar é este: duvide. Não agora, claro. Espere eu terminar minha exposição... Coloquei este palpite em primeiro lugar por um motivo especial. Duvidando, é mais dificil que você chegue a pensamentos idiotas. Claro que isto não o isentará de besteiras, mas elas terão de percorrer um caminho muito maior para lhe chegar ao juízo.
Manga com leite mata.... Hmmm... Mata por quê? Toxinas do leite reagem com alguma proteína da manga? Seria culpa da vitamina C que em contato com a lactose torna-se cianureto? O gosto ficaria tão horrível que o sujeito desesperado jogar-se-ia do décimo andar em busca de algum alívio? Ou então vacas tem alergia à manga, e o leite de vaca que comeu manga provocará cancêr de mama? Se tudo isto é verdadeiro, como empresas sérias produzem sorvete de manga?
Viu... A maioria dos argumentos bestas tomba sob efeito duma chuva pesada de dúvidas sensatas. E é isto que o caro coleguinha deve procurar: afirmações resistentes as dúvidas.
Outro motivo forte o bastante é o seguinte. Algumas idéias, de tão repetidas, parecem verdadeiras. E tudo que é muito repetido acaba sendo pouco duvidado, apenas porque a repetição dá um verniz de verdade. Nossos políticos, por exemplo, vivem afirmando que o Brasil é uma democracia.
(mas será mesmo? Se é uma democracia, por que logo os políticos dizem isto com tanta veemência? Deve ter algo de podre aí... Será por que o voto é obrigatório, temos um exército de eleitores analfabetos e/ou pobres e/ou facilmente manipuláveis com irrisórias promessas de campanha? Ou o aberrante desrespeito à legislação eleitoral? Será que é o fato dos candidatos vencedores sempre contarem com enorme caixa financiado por terceiros? E o famoso caixa 2? Quem pagou?)
Isto de recomendar a dúvida não é nenhum mistério. Descartes prega a Dúvida Metódica faz séculos. Claro que podemos duvidar de toda a filosofia cartesiana, que é muito duvidável, sem dúvida... Mas a dúvida sistemática, além de limpar nossa mente dos conceitos tortos e errôneos, deixará um saudável hábito de questionar antes de adotar o que os outros (geralmente idiotas) falam.
Porém, há limites. O prazer da dúvida não deve se transformar num vício doentio. Caso o indivíduo desenvolva um Ceticismo Crônico, nada de útil surgirá na cabeça dele, e a certeza da dúvida ficará como única coisa a ser aceita. Isto leva a estagnação e ao niilismo (palavra que sempre me provoca uma crise de riso). Quando uma afirmação resistir às dúvidas mais sensatas e racionais, é hora de parar. Chegaste num bom telhado e é melhor dormir a noite tranqüila. Só volte ao caminho das dúvidas quando a estalagam da razão na qual se encontra começar a gotejar.
Enfim, desconfie. Inclusive deste conselho, mas não muito. Ele é sábio.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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