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O impressionante Dr. Strauss, ao saber que o Sr. Pierre seria seu mais exato biógrafo, matou-se com um tiro de espingarda. Quando recebeu a notícia do suicídio, o Sr. Pierre caiu no chão e ainda não decidiu se escreverá a vida do impressionante Dr. Strauss.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Astronomia Humana
Ninguém se acostuma com as distâncias astronômicas. Duma galáxia à outra há tantos quilômetros que é inútil contar. E nem a luz atravessa impávida estas vastidões... Até ela precisa de paciência. E as distâncias tão enormes deixam a vida humana curta demais para conhecer uma vírgula deste universo terrivelmente grande.
Eu, no entanto, não compartilho deste espanto. Acho-o fútil, inclusive. Muito mais impressionante é a distância que existe, por exemplo, entre a mocinha da janela e eu. Vários anos-luz, desconfio... Que estamos uns quinze metros um do outro, neste momento, qualquer trena consegue contabilizar. Mas nas dimensões abstratas não há metro ou escala possível. Estamos separados por abismos de escuridão e vácuo, nebulosas insondáveis e toda sorte de solidão espacial.
Como uma estrela que se apaga mas ainda vemos seu brilho, talvez a mocinha da janela já tenha se apagado, embora eu ainda perceba sua luz, que viajou por tempos longínquos até chegar aos meus olhos. E eu, certamente apagado faz séculos, não pertenço mais às constelações no céu da mocinha da janela. Se é que ela ainda existe. De todo modo, não importa muito, pois nunca nos conheceremos. Mesmo se a distância for milimétrica.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Caso decidas ser a própria religião, deverás lembrar de também ser o diabo malvado, invejoso decaído, personificação dos vícios e criatura das trevas. E o anjo exterminador, redentor misericordioso e o iluminado pelo júbilo de ser ti mesmo. O messias, o heresiarca, o crédulo e o pastor, cuja palavra pregará a todos que sejam unicamente tu. Sucumbirá aos erros e exageros de vossa extensa cosmogonia. Deturpará teus preceitos e condenar-te-á aos sacrifícios cabíveis em cada situação. Lembra de curar-te da lepra, salvar-te da perdição, expulsar o mal e elevar-te ao teu céu egocêntrico. Canoniza, blasfema e mistifica frente ao espelho. Conduza exorcismos, possua e provoque tentações à vossa própria carne. E viva em solidão, não aceitando outros fiéis além de ti, pois tua seita já cresceu demais e novos iniciados não serão aceitos.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Sarei. Mas não vai dar tempo pra explicar. Como dizia aquele tiozinho matemático:
Cuius rei demonstrationem mirabilem sane detexi hanc marginis exiguitas non caperet.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Peguei tuberculose relendo “Montanha Mágica”.
O exemplar que li é de biblioteca. Está gasto e bem sujo. Digamos que uma turba de tuberculosos já o tenham lido, apreciado, digerido, e principalmente tossido em todo o livro... Logo, há bacilos de Koch em cada página, em cada digressão de Hans Castorp, em cada porta que a desleixada Clavdia deixa bater com estrondo, em cada exortação ao progresso de Settembrini...
Não, não é tuberculose. Talvez só uma tosse canalha. Talvez rebellio carnis. Meu corpo passou a julgar minha alma como um catarro digno de ser expelido. Daqui um tempo passa. Ou então minha biografia chamar-se-á “O Homem que tossiu a alma”.
Mas se for, tomarei remédios fudidos e não poderei beber... Jesus fuckin christ!, melhor morrer.
Semana que vem vou ao médico. (Faz três semanas que digo isto... )
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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