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Que rapaz mais adorável
Não simpatizo com a raça humana. Nunca o fiz, desde pequeno. Com o passar do tempo, este preconceito foi comprovado pela experiência. Gente é um troço barulhento, indelicado, estúpido e na maior parte das vezes, inútil. Feito um moedor de milho. Desta maneira, tenho bastante ciúmes de minha solidão, cultivada diariamente.
Nestes últimas dias, porém, sofri uma violenta investida das forças humanas: novos vizinhos. Terríveis. Barulhentos. Indelicados. Estúpidos. Inúteis. Uns moedores de milho. Felizmente, são temporários, e graças às táticas defensivas que adotei, este tempo vem decaindo. Com empenho e dedicação, a velha Xantipa e seu marido anti-Sócrates deixarão de ser meus vizinhos.
Levo uma vida silenciosa aqui. Mesmo sozinho, evito fazer barulho, pois o considero besta. Os novos vizinhos notaram esta minha característica e acharam-me uma graça. Que rapaz mais adorável...Pois sim! Defendi-me dignamente deste jeito:
Noite Um. No mais denso silêncio da madrugada, dei um grito inesperado. URRRAAA!! Depois contei alguns segundos e espatifei uma garrafa de vidro no chão. Não contente, atirava bolinhas de gude, em intervalos de trinta minutos. Fiz isso até as cinco da matina. Que rapaz mais adorável
Noite Dois. Quatro da madruga acordei. Novamente, denso silêncio. E por quê não colocar a parte final de “We´re only in it for the money”? Não em alto volume, diga-se. Apenas sugerindo que o rapaz mais adorável produz uma estranha cacofonia. E tem um monte de gente no quarto dele rindo, pensa o anti-Sócrates. Pensa? Hmmm, estou sendo meio otimista...
Noite Três. Começa o silêncio (mas pouca gente percebe) em torno de 01:00. Ora bolas, minhas facas estão cegas. Passo um tempinho afiando-as, e desafiando a imaginação dos vizinhos infernais. Que diabo de rapaz mais adorável este que passa a noite amolando facas? Também dei um grau nos formões. São noruegueses, custam uma nota e não podem ficar cegos.
Noite quatro. Pretendo parar com os estranhos barulhos. Se bem que meu latim está enferrujado. Seria uma boa relembrar os tempos verbais em voz alta. E ler um pouco de Virgílio. "Aeinedos liber primus... Arma virumque cano, Troiae qui primus ab oris Italiam fato profugus..."
Manhã após a noite quatro. Ouvi a frase solta: "vamos embora hoje mesmo!" Yesss. Estes vizinhos já mudaram de idéia, mas eu continuo me achando um rapaz adorável.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Deveriam inventar um campeonato literário. Mas não de poesias melosas e romances existencialistas. Seria algo do tipo "invente uma história vingativa envolvendo o proprietário da sua casa"
E só pra quem mora em casa alugada.
Estou dizendo isso porque aconteceu algo com o dono lá de casa que... transcende a criatividade. Ninguém nunca pensou nisto. Talvez só o Willy Coyote.
Sabe aqueles caminhões que despejam concreto, através dum longo "canudinho" articulado? Este treco aí pretendia despejar concreto na laje dum prédio de três andares, lá atrás de casa. Esticaram o canudinho e, bom, ele ficou um pouco fora do local certo. Exatamente no quintal da outra casa do mesmo proprietário da minha. O infeliz (um velho tremendamente idiota) estava no quintal citado fazendo gambiarras quando deram o Start no "despejar concreto". Eu tinha acabado de acordar quando ouvi um tremendo Flooooosh!!!
Abri a janela e lá estava o Seu Ovídio, cinza, furibundo, no sua piscininha de concreto.
Após dez horas do ocorrido, eu ainda estou dando risada. Doem as bochechas deste que vos escreve. Foi como um sonho (que não tive) tornandos-se realidade. E logo bem cedo. Ah, como viver, às vezes, é bom.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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Outro dia, comprei uma garrafa de vinho. E fiquei bebericando-a enquanto matutava uns assuntos. Lá pelas tantas, comecei a pensar nos escritores chegados à manguaça. Joyce um deles. Balzac, com excessos de toda ordem. Poe, e dizem que não era propriamente um copólogo, apenas fraco pro álcool. O clássico Bukowski... E Fernando Pessoa. Então trombei com uma teoria. A saber:
Ora bolas, pensei, será que o Fernandinho fez um heterônimos para as ressacas?
Que simples. O Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros, autor do Livro do Desassossego. Leia lá, caro coleguinha. Após uma noitada encharcando a cuca, o sujeito fica assim inativo, inábil, infenso às ambições e pragmatismos, totalmente abulico, vontades de nada. E mais, prefere ficar deitado a sonhar, pois o mundo está repugnante. As impressões, por mais leves, tem a dimensão do colossal. E tudo, tudo tudo, parece ter surgido ali, como por efeito dum truque mental, inclusive as outras pessoas.
Dependendo do tamanho da ressaca, o sujeito até se arrepende de ter escrito o Rei Lear. Aponta imperfeições com facilidade, pois seu espírito está aguçadíssimo para o imperfeito. Prefere não conquistar impérios e vê na briga da esquina as comoções do eterno. A Rua dos Douradores torna-se um universo vastíssimo. Enfim, Bernardo Soares é a personificação da ressaca.
A prova desta teoria é o próprio livro, que nunca tornou-se livro de verdade. Apenas um amontoado de notas, sem datas, títulos, revisões. Papelada num baú. Coisa de bêbado mesmo. Quem quiser, que leia. Quem não quiser, vá para a praia.
Escrito pelo desalmado Felipe Balster
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